Fábio Pinto dos Santos
Nascido e criado no Morro São João, no Rio de Janeiro, Fábio Pinto dos Santos — o Fabinho do São João — é um comunicador social, palestrante e mobilizador cujo percurso simboliza a superação das estruturas de violência urbana. Tendo exercido papéis de influência e liderança em sua comunidade de origem, Fabinho enfrentou os ciclos de confronto e privação de liberdade que marcam o cenário conflagrado da capital fluminense. Foi no interior do sistema prisional que ele iniciou um rigoroso processo de introspecção, utilizando a leitura, a fé e a escuta ativa como alicerces para a construção de uma nova identidade. Sua transição para a vida civil é pautada pelo compromisso ético de utilizar sua biografia como um espelho crítico para a juventude periférica, promovendo a justiça social através do diálogo.
Produção Social e Narrativa
Fabinho destaca-se por sua capacidade de converter vivências traumáticas em metodologias de acolhimento e prevenção:
01 Sobreviventes (Podcast): Como coidealizador deste projeto de vanguarda na comunicação periférica, Fabinho uniu-se a Alexander (Polegar), Patrick do Vidigal e Robinho da Kelson. No podcast, ele atua na desconstrução dos mitos do crime, utilizando a narrativa testemunhal para alertar sobre as consequências reais do tráfico e oferecer caminhos alternativos de reinvenção pessoal. A plataforma consolidou-se como uma ferramenta de conscientização que alcança milhares de jovens em todo o país.
Educação e Oratória de Resistência: Sua produção intelectual manifesta-se em palestras em universidades, unidades socioeducativas e presídios. Fabinho utiliza a "pedagogia do exemplo", transformando a fala em um instrumento de reeducação que fortalece o amor próprio e a consciência de classe entre os jovens das favelas, legitimando a palavra como a via definitiva de saída da marginalidade.
Contribuições e Impacto
A trajetória de Fabinho do São João é um testemunho da eficácia da ressocialização quando aliada ao protagonismo do sujeito. Ao transitar de uma liderança territorial para uma liderança intelectual e ética, ele oferece uma contribuição inestimável para o debate sobre segurança pública e direitos humanos. Seu ingresso na Academia Brasileira de Letras do Cárcere simboliza a legitimação de uma escrita e de uma fala que nasceram do asfalto quente e das galerias frias para se tornarem literatura de sobrevivência. Fabinho prova que a missão de salvar vidas por meio da palavra é o mais alto grau de erudição que um sobrevivente pode alcançar, reafirmando o compromisso da ABLC com a transformação social.
"Sua trajetória demonstra que a maior autoridade de um homem não reside no poder que ele exerce sobre um território, mas na capacidade de libertar consciências através da verdade de sua própria história."

A Cadeira nº 36 da Academia Brasileira de Letras do Cárcere (ABLC) é dedicada à memória de Astrogildo Pereira, jornalista, crítico literário e um dos principais intelectuais da história do movimento operário brasileiro. Fundador do Partido Comunista do Brasil (PCB), Astrogildo viveu o cárcere em diferentes momentos de sua militância, enfrentando a repressão tanto na Primeira República quanto durante o Estado Novo. Foi na experiência da clandestinidade e da prisão que ele refinou sua capacidade de análise social, utilizando a escrita não apenas como arma política, mas como um instrumento de interpretação profunda da cultura brasileira, sendo um dos primeiros a realizar uma leitura crítica e sistematizada da obra de Machado de Assis sob uma ótica social.
Ao homenagear Astrogildo Pereira, a Cadeira nº 36 da ABLC reafirma o compromisso da instituição com a literatura como formação de consciência e crítica cultural. A escolha de Astrogildo como patrono simboliza a figura do intelectual que, mesmo sob a vigilância do Estado, não interrompe a tarefa de educar e organizar a classe trabalhadora através da palavra impressa. Sua trajetória destaca que a escrita produzida no contexto da luta política — e muitas vezes nas precariedades da detenção — é fundamental para a construção de uma identidade nacional que contemple as vozes das periferias e dos excluídos.
Mais do que uma homenagem, esta cadeira representa o elo entre a imprensa operária do início do século XX e as vozes contemporâneas que, no sistema prisional, buscam na literatura e no ensaio político os meios para a emancipação intelectual. Inspirados pelo rigor analítico de obras como Machado de Assis: Ensaios e Apontamentos Avulsos, os escritores vinculados à ABLC buscam transformar a experiência da privação em uma narrativa de erudição comprometida, contribuindo para um debate público que reconhece na crítica literária uma ferramenta essencial para a denúncia das injustiças e para a construção de uma sociedade mais justa.
"Sua trajetória demonstra que a pena de um escritor engajado é capaz de romper o isolamento da cela para semear ideias de liberdade em todo o corpo social de uma nação."

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